MarioHiriart (1931-1964) - Chileno, Engenheiro, Irmão de Maria - com 24 anos de idade, estava a procura de sua vocação. Frequentemente dirigia-se, em diálogo, a Mãe de Deus para resolver esta questão. Tratava-A de "Madrecita" (Mãezinha) e com Ela conversava simplesmente tudo. Os seguintes trechos de seu diário revelam um pouco da busca de sua vocação.

"Madrecita, ... devo preocupar-me ... a respeito do meu problema vocacional. Creio que existem razões muito mais expressivas que me fazem tender mais para a vida de Irmão de Maria do que para o matrimônio. ..." (março de 1955).

"1. Cada dia compreendo mais claramente: o único que me satisfaz plenamente é a entrega por inteiro ao mundo sobrenatural, ao apostolado e particularmente a dedicação ao Movimento. ... Tudo isto parece exigir uma entrega absoluta ao Movimento, com total liberdade, sem nenhuma restrição de tipo natural, e é evidente: ter uma família e a responsabilidade de cuidar dela seria um forte impedimento para um trabalho desse tipo.
2. Atrai-me também a possibilidade de desenvolver, como Irmão de Maria, uma vasta obra cultural, para a qual, com certeza, não teria tempo como cabeça do meu lar. ...
3. Sem duvida, o obstáculo mais sério para tomar de imediato a decisão de vir a ser Irmão de Maria é que, afetivamente, não me satisfaz. O contato com as moças, e em particular com Alicia, e o amor que ela despertou em mim, tem me causado uma vontade enorme de satisfazer, com o amor por uma mulher, essa imensa capacidade de amar, que Deus colocou em nós. Sei que essa complementação pode obter-se e deve se obter, em maior medida, no mundo sobrenatural, mas não tenho conseguido me animar para isso. ..." (14.03.55).

"Sinceramente, cumpre-me confessar que o matrimônio me atrai mais, sobretudo porque promete um lar agradável e aconchegante, afetos, abrigo humano e tudo que vem a satisfazer a parte afetiva do meu ser. Este lado afetivo predominou cada vez mais em mim, sem que fosse preenchido humanamente. Mas devo perguntar-me, igualmente, a este respeito: Em que medida essa atração se deve mais a uma pessoa concreta do que ao ideal em si mesmo?..." (25.10.54)

"É, tenho essa ânsia tão imensa de amar e de ser amado, Madrecita! Mas, com todos esses acontecimentos, me demonstraste, com total clareza, que essa sede de amor não pode ser satisfeita por pessoas humanas; chega-se ao ponto em que somente o sobrenatural pode preenchê-la; somente em ti e em teu Filho encontro e encontrarei satisfação. Por isso, Madrecita, a decisão final se impôs imediatamente e, à noite mesmo, nas minhas horas de insônia, tomei-a no íntimo do meu coração; te oferecerei, Madrecita, minha virgindade, de corpo e de espírito, para o resto dos meus dias - só Deus sabe se serão poucos ou muitos - para me dedicar por inteiro ao teu serviço, ao teu amor e ao amor pleno aos homens, por ti, como Irmão de Maria, ...
Na minha primeira visita ao teu Santuário, Madrecita, que espero seja amanhã mesmo, farei formalmente a entrega da minha promessa na frente do teu altar. ..." (10.05.55).

Alguns de seus amigos e conhecidos decidiram-se pelos estudos de teologia, queriam tornar-se sacerdotes. Para Mario esta opção vocacional nunca foi relevante. Ele via seu caminho e sua tarefa pessoal claramente como leigo. Procurou descobrir o seu caminho, desejado por Deus, para seu futuro pessoal e assumiu sua profissão de engenheiro como Irmão de Maria.

Seu Ideal Pessoal foi se desenvolvendo. Formulou-o com estas palavras:
"Como Maria, cálice vivo, portador de Cristo!"

"O que eu queria com meu Ideal Pessoal, era abrir toda minha natureza para a graça. Por esta razão, interessam-me todas as manifestações mais características do natural, ... mas para sobrenaturalizá-las. ... Assim, meu Ideal Pessoal é um contínuo voltar-se à natureza; ..." (11.11.57).

"Quero ser um vivo encontro entre o céu e a terra! ... O que a gente não é, não irradia. O essencial de um Irmão de Maria pode ser formulado de muitas maneiras. No meu ponto de vista, olhando para o meu próprio Ideal Pessoal, eu o expressaria dizendo que é o leigo que, a exemplo de Maria, une em si o natural com o sobrenatural; ou, mais exatamente, aquele que, através do seu ser, ordena o mundo natural em função do sobrenatural." (14.09.61).

"Muitos homens, ao chegarem ao fim de sua carreira profissional, se dão conta da futilidade e do vazio de tudo o que estudaram, do pouco que isto representa e contribui para o sobrenatural. Restam então dois caminhos a seguir: o primeiro é abandonar este caminho tão débil em suas raízes e dedicar a vida inteiramente a serviço de Deus, através da vida religiosa; o segundo é a sobrenaturalização da profissão. ... Qual destes caminhos é o meu?" (25.05.1953)

"... Assim como o percebo hoje, o caminho de minha vocação baseia-se na convicção pessoal de que o Cristianismo da nossa época necessita, de maneira absoluta, um grau extraordinário de santidade laica. Esta santidade há de expressar-se numa vocação e decidir-se por uma tarefa e missão no mundo laico; deve ser aperfeiçoada por um conceito teocêntrico da vida laica e realizada com heroismo igual ou maior ainda que o dos maiores mártires da Igreja. ..."

"O que a Igreja precisa para vencer as heresias da nossa época, são engenheiros que mudem radicalmente os conceitos atuais das engenharias, que os ponham em dependência de últimos princípios e os vivam até as mais sérias conseqüências." (1957)

"Nestes sinais do tempo temos a obrigação de ler a vontade de Deus. Esta vertiginosa fuga de Deus não pode ser a Sua vontade. A época teocentrífuga há de terminar, para dar espaço a uma era teocêntrica: O mundo laico precisa imbuir-se com espírito religioso; os dois planos devem coincidir novamente.
Enfrentamos assim uma tarefa gigantesca: trata-se de recuperar todo o terreno perdido durante vários séculos de história e com certeza este será também um trabalho de séculos. É um trabalho de incorporação de todos os valores culturais e humanos a uma concepção cristã universal. Ao separar-se do Cristianismo eles perderam seu centro. ..." (1957)