Paulo Tochetto de Oliveira
(1962-1985)
Santa Maria RS, 02 de fevereiro de 1984, festa da Candelária: Paulo, 22 anos de idade, despede-se de sua família: de seu pai, de sua mãe, de seus irmãos. Qual é o motivo? Descobriu que Deus o chamou a ser Irmão de Maria - o primeiro Irmão de Maria brasileiro.
Nasceu no dia 7 de setembro de 1962 - Independência! - Paulo travou sua luta de independência: independente de costumes, de regras, de religião, de disciplinas, de ordem, ... quis fazer as coisas como bem entendia, quis ser livre de "imposições". Mas a luta por esta independência de tudo converteu-se, cada vez, mais em dependência.
Após um encontro de jovens no Movimento de Schoenstatt entendeu o que é liberdade: Ser livre para o grande plano de amor que Deus tem para cada pessoa! Paulo entendeu: Deus guarda no seu coração um eterno plano de amor para comigo. A partir daí travou a verdadeira batalha de liberdade: Livre de si e livre para Deus! Esta foi a luta e esta foi a grande virada em sua vida.
Auto-educação! Nos seus cadernos passa a escrever com uma letra mais legível. Chega a cumprir horários; levanta mais cedo; arruma seu quarto; ordena todas as suas coisas; na mesa já come o que antes detestava. Vence a escravidão frente à TV. Frequenta novamente a Igreja e muito mais.
Inscreve-se num Curso de Crisma e é crismado. Daí em diante o Espírito Santo sopra nas velas de seu barco: Paulo desenvolve um empenho apostólico entre os colegas de seu curso na Universidade, entre seus amigos e jovens em geral. Ajuda, serve e procura transmitir sua própria experiência. Além disso organiza também grupos de jovens e vai às vilas e capelas para atendê-los.
No fim do ano de 1982 formou-se em Farmácia e Bioquímica na UFSM e em 1983 fez a especialização como farmacêutico industrial. Seus colegas atestam: "Paulo era competente e um entusiasta por sua profissão". Tinha grandes planos para sua futura vida profissional. Seu entusiasmo e capacidade profissionais prometiam-lhe uma excelente carreira.
Quando os colegas souberam que Paulo entrara no Instituto dos Irmãos de Maria disseram-lhe: "Agora tudo o que você e o governo investiram em sua formação profissional está perdido. Você poderia ter sido um bom profissional para servir a comunidade".
Paulo respondeu: "Justamente este é um dos motivos porque me decidi a ser Irmão de Maria: para que eu possa ser um melhor profissional ainda e servir melhor a comunidade" (são palavras dele na ocasião de um acampamento de jovens em Santo Ângelo, RS). Mas os colegas não o compreendiam. Sacudiam a cabeça dizendo: Então o Paulo vai ser padre, não dá para entender". Este mal entendido, esta confusão a respeito de "Padre" e "Irmão", fê-lo estudar a fundo as duas vocações e como resultado reforçou a sua identificação com a vocação de Irmão de Maria.
Paulo desprendeu-se temporariamente de seus assuntos profissionais, pelos quais ele vibrava, e dedicou-se inteiramente à sua formação vocacional, dentro do Instituto. Para isso dois anos foram previstos e, no fim do ano de 1985, iria encaminhar sua vida profissional de farmacêutico como Irmão de Maria.
Nesta época houve um contínuo progresso no crescimento de sua personalidade. Pode-se repetir os termos que o Pe. Kentenich usava para caracterizar Mario Hiriart: "claro no seu pensar, disciplinado, dedicado ao seu trabalho e religioso até o seu inconsciente". Nitidamente podia-se observar em Paulo o crescimento nestas quatro características.
No seu pensar procurou realmente plena clareza das coisas e expressava-se com entusiasmo cada vez que descobria conexões e últimas razões no seu raciocínio.
Podia-se observar uma notável e crescente disciplina nas coisas pequenas do seu dia-a-dia. Como se dedicava a serviços humildes, como atendia às pessoas, como se organizava em todas as suas coisas... Seu crescimento na dedicação ao trabalho também merece destaque: As matérias que recebia todos os dias de manhã eram passadas a limpo a tarde. Não só as copiava, mas refletia sobre o assunto e muitas vezes apresentava, no outro dia, o resultado.
Não podemos julgar até que nível Paulo cresceu em sua religiosidade. Mas o que ele disse 24 horas antes de sua inesperada morte, logo após o enterro de Sr. João Pozzobon, apóstolo da "Campanha da Mãe Peregrina", permite enxergar fundo: "Se hoje ou amanhã chegar a minha vez, estou pronto". Assim ele falou, numa conversa bem espontânea com amigos.
Domingo, dia 30 de junho de 1985
Chuva o dia inteiro. Paulo está sendo velado no Santuário Tabor de Santa Maria. Após a missa todos se reúnem no cemitério Sta. Rita, em volta de um túmulo aberto; entre eles muitos jovens. Repentinamente sopra forte um vento sul, espanta as nuvens de chuva e o sol no poente inunda o céu em cor de fogo. ...
Paulo volta à terra como semente para a fundação dos Irmãos de Maria no Brasil e como fundamento para um novo Santuário.